A propósito de ti...
«Somos felizes. Acabámos de pagar a casa em Outubro, fechámos a marquise, substituímos a alcatifa por tacos, nenhum de nós foi despedido, as prestações do Opel estão no fim. Somos felizes: preferimos a mesma novela, nunca discutimos por causa do comando, quando compras a TV Guia sublinhas a encarnado os programas que me interessam, lembras-te sempre da hora daquela série policial que eu gosto tanto com o preto cheio de anéis a dar cabo dos italianos da Máfia.Somos felizes: aos domingos vamos ao Feijó, visitar a tua mãe, ficas a conversar com ela na cozinha e eu passeio com o indiano, filho de uma senhora que mora lá no pátio, assistimos ao basquete dos sobrinhos dele no pavilhão polivalente, comemos uma salada de polvo no café durante os resumos do futebol e voltamos para Almada à noite, com o jantar que a tua mãe nos deu numa marmita embrulhada no Record, a tempo de assistir às perguntas sobre factos e personalidades do concurso em que a apresentadora se parece com a tua prima Beatriz, a que montou um pronto-a-vestir no centro comercial do Prior Velho.Somos felizes. A prova de que somos felizes é que comprámos o cão no mês passado e foi por causa do cão que tirámos a alcatifa que as unhas do animalzinho rasparam de tal forma que já se notava o cimento do construtor por baixo. Andámos a ensiná-lo a não estragar as cortinas, pusemos-lhe uma coleira contra as pulgas depois de uma semana inteira a coçarmo-nos sem entender porquê, passados dois dias o Fernando começou a coçar-se também e a acusar-me de cheirar a cachorro e levar pulgas para a repartição, o chefe avisou-me do fundo- Veja-me lá isso AntunesDe modo que pus também uma coleira contra as pulgas debaixo da camisa, o Dionísio, espantado -deste em cónego ou quê?E eu, envergonhado, a abotoar o colarinho-é uma coisa chinesa para o reumatismo a Jóia Magnética Vitafor é uma porcaria ao pé distoe como nas Finanças se respeitam o reumatismo e as coisas chinesas, nunca mais me maçaram.Às segundas, quartas e sextas sou eu que vou lá abaixo levar o cão a fazer chichi contra a palmeira, às terças, quintas e sábados é a tua vez e o que não vai lá abaixo fica à janela, a olhar o bichinho a cheirar os pneus dos automóveis com o ar sério de quem resolve problemas de palavras cruzadas que os cães têm sempre que farejam postes e Unos.Somos felizes. Por isso não me preocupei no sábado com o animal muito entretido na praçeta e tu atrás dele, de trela enrolada na mão, sem olhares para cima nem dizeres adeus, a andar devagarinho até desapareceres na travessa para a estação dos barcos. Foi anteontem. Às onze horas tirei o cozido do forno e comi sozinho. Ontem também. Hoje também. Não levaste roupa nem pinturas nem a fotografia do teu pai nem nada.Ainda há bocadinho acabei de gravar o episódio da novela para ti. A tua mãe telefonou a saber porque é que não fomos ao Feijó e eu disse-lhe que daqui a nada lhe ligavas. Porque tenho a certeza de que não foste embora visto sermos felizes. Tão felizes que um dia destes vou comprar um micro ondas para, se chegares a casa, teres a comida quente à tua espera.»
António Lobo Antunes
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1 comentário:
Somos felizes aqui em Lisboa. E não, não vamos ao Feijó, nem andamos de cacilheiro - ó António, o que tu gostas da Praia das Maçãs, tu, que na tua imensa taradice ou é Nelas e a Madrinha que vive com o canário numa marquise com vista para o esgoto que nem sequer adivinha onde desagua no Mondego
(e o cão, Mondego, um enorme serra da estrela castanho arruivado que ladrava aos putos que passavam perto do quintal, o cão que não comia e levava pancada e que um dia fugiu e morreu atropelado no primeiro minuto de liberdade que alguma vez conheceu)
ou então todo tu és Loures, ou Prior Velho, ou Alverca, entremeado com recortes sombrios da guerra de África, onde estiveste, Nambuangongo, Benguela, Sá da Bandeira, Lobito, Kelimane, Porto Pinda, num buraco preto com escuros, ou da forma inversa, onde estiveram pacientes que trataste, ali ao virar da esquina do passado barulhento de memórias pesadas como o chumbo dos canos que a Câmara agora quer tirar
(e o Jonas, bom rapaz, a partir azulejos e a fumar na minha cozinha, e cobre-me o chão de cinza que pisa com as botas de carneira),
no sítio onde batalhou o paciente que numa das tuas crónicas só queria ir dar comida aos hipopótamos)
(e na qual tu acabaste meio pirulas a dar aos tigres, lembras-te, eu lembro-me, ne varietur, como da tua moleirinha veio ao mundo pela correnteza da escrita)
Ó António, todo tu escreves bem, mas a taradice ninguém ta tira, como também o Prozac não to deviam tirar.
Joãozinho, cunhado, sê feliz, onde estiveres e tem a certeza de que a tua felicidade é sempre maior do que um micro-ondas meio avariado em nenhures - e pela certa, sempre maior do que a de ALA.
Abraços,
ZA
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